Bontê: Tornando a empatia um hábito

A Rede Bontê incentiva ações de empatia através de seu aplicativo

Muito mais do que uma palavra em alta, a empatia é objeto de estudo da ciência, principalmente das áreas ligadas à psicologia. De forma simples, a empatia se refere à capacidade de se colocar no lugar do outro. Através dela, é possível sentir e olhar o mundo a partir de outros olhares, aumentando, por exemplo, o nível de compreensão nos relacionamentos cotidianos. Antes de ser uma característica inata, ela pode ser desenvolvida e incentivada ao longo da vida.

Buscando atuar no uso da empatia para melhorar o bem-estar social, Paula Vaz, aluna de Ciência da Computação do Centro de Informática (CIn) da UFPE, e Flávia Godoy, do curso de Design da UFPE, desenvolveram o aplicativo Bontê. Lançado em junho de 2019, o app traz a empatia como o caminho para um mundo melhor. A interface do Bontê incentiva atos empáticos na rotina do usuário através de um céu onde as estrelas podem ser acesas após a execução dessas ações. Cada usuário possui um céu particular. O nome vem da palavra “bonté”, bondade na língua francesa. O app está disponível para dispositivos iOS, o download pode ser feito na App Store.

Empatia para quê?

De acordo com a Universidade Estadual de Michigan, os brasileiros estão longe de ser a população mais empática do mundo. No ranking de empatia divulgado pela instituição, em 2016, o Brasil ocupava a 51º posição entre os 63 países que participaram do estudo. Através de questionários, a pesquisa tentou mensurar a capacidade empática em situações hipotéticas. O resultado mostra que, apesar da população ser conhecida pela sua receptividade, ainda há muito o que melhorar.

Quando se fala em prevenção ao suicídio ou em campanhas de valorização da vida, como o Setembro Amarelo, a empatia se torna fundamental. É a partir dela que se torna possível compreender o outro, entender suas dores sem relativiza-las e indicar ajuda profissional. O exercício da empatia também pode atuar na prevenção de situações cotidianas que favorecem o aparecimento de transtornos mentais.

Desenvolvimento de software para o bem

Criadoras da Rede Bontê, Flávia Godoy e Paula Vaz, da esquerda para a direita.

Paula Vaz e Flávia Godoy são alunas da Apple Developer Academy do CIn-UFPE. O Bontê foi criado como parte das atividades desenvolvidas por elas na Academy, partindo do desejo de desenvolver um software que tivesse um cunho social. Foi durante a pesquisa sobre possíveis temas que as estudantes se depararam com a palavra empatia e mergulharam a fundo no conceito. “A gente queria arranjar algum meio de transformar o mundo, tipo, mesmo que por passinhos de formiga, sabe? E aí a gente pegou e resolveu aplicar empatia no cotidiano”, relata Flávia Godoy.

A partir dessa perspectiva, as pesquisas tiveram continuidade para tentar compreender porque as pessoas eram empáticas ou não, qual o perfil de uma pessoa empática e o que dificultava o exercício da empatia. “Foi aí que a gente parou nessa coisa da rotina apressada e da modernidade e tal. E das pessoas estarem tão absortas na sua rotina, nos seus problemas, que elas acabam tendo essa dificuldade de enxergar o outro, enfim, de se conectar com as outras pessoas”, explica Paula Vaz.

Com isso, as estudantes começaram a direcionar o olhar para exercício da empatia no dia-a-dia, que pudesse ser feito através de ações que não provocassem grandes alterações na rotina e trouxessem mudanças nas relações do ecossistema pessoal e de trabalho. Paula Vaz destaca que a empatia também está em atos mais corriqueiros: “as pessoas acham que só é empático se eu sair daqui e for fazer uma ação em um ONG, sabe? Vou fazer alguma coisa que vai me tirar da minha rotina, do meu dia-a-dia. Isso também é empatia, mas empatia também é você se comunicar bem, você se conectar com as pessoas com quem você trabalha, com quem você convive na sua família, seus amigos, todo mundo”.

Com a ideia central do aplicativo já bem estruturada, é hora de testar. Paula e Flávia elaboraram uma lista de ações empáticas baseadas em pesquisas e em atitudes observadas no cotidiano delas. Em um grupo de um aplicativo de mensagens instantâneas com cerca de 10 pessoas, as estudantes enviaram essa lista para que os membros pudessem executar e relatar a experiência. No período de duas semanas, os depoimentos foram satisfatórios, um deles dizia que o relacionamento com o chefe do trabalho havia melhorado a partir da execução das ações de empatia.

No desenvolvimento aplicativo, Paula cuida da parte de programação, enquanto Flávia é responsável pelo design e toda identidade visual do Bontê. O trabalho foi acompanhado pelos instrutores da Academy Francisco Soares, na parte de programação, Rafael Formiga, no design e Cristiano Araújo, que também é professor do CIn-UFPE, na área de inovação. As criadoras pensam além do app e veem o Bontê enquanto um rede de empatia, uma vez que a execução das ações do aplicativo podem despertar na pessoa que foi alvo da ação o desejo de ser empático também.

O público do Bontê

Participantes do evento de lançamento do Bontê em junho no CIn-UFPE.

Atualmente, as mulheres são maioria entre os os usuários do Bontê, figurando como 64%. Apesar disso, as criadoras afirmam que existem homens muito ativos na comunidade. A relação da empatia com genes de mulheres e homens é algo que vem sendo estudado, mas ainda está em fase inicial, como mostra a pesquisa da Universidade de Cambridge, divulgada em 2018. Os pesquisadores constataram que as mulheres alcançaram uma pontuação média maior do que os homens no questionário de empatia e descobriram que pelo menos 10% da diferença no grau de empatia pode ser devido a fatores genéticos. No entanto, considerando a amostragem de 46 mil pessoas e variáveis na metodologia, ainda são necessários novos estudos para uma certificação maior dos dados.

Segundo Flávia e Paula, a principal recompensa recebida pelo Bontê é o retorno dos usuários. Já são várias as respostas de agradecimento pela criação do app e pelas mudanças provocadas na vida de quem utiliza o Bontê. Um dos exemplos marcantes para as criadoras foi a utilização do Bontê por uma criança ao pegar o celular do pai e acreditar ser um tipo de jogo. O menino foi até o pai e seguiu a sugestão de ação do aplicativo para elogiar algo que gostava em alguém, deixando o pai admirado.

Passos futuros

Os usuários do Bontê receberão em breve atualizações no funcionamento do aplicativo. Além do conjunto de estrelas já existente, eles terão acesso a uma loja do app com dois novos pacotes de estrelas, um para o exercício da empatia na família e outro para o exercício da empatia especificamente no trabalho. Também estarão disponíveis planetas que poderão ser comprados para deixar o céu ainda mais bonito. Hoje, com a entrada de Renan Freitas na equipe, um app do Bontê para o Apple Watch está em desenvolvimento. Paula e Flávia também têm intenção de desenvolver a versão Android do app em um futuro próximo.

Camisa da Rede Bontê no modelo abracinho.

Já é possível adquirir camisas da Rede Bontê em dois modelos através do perfil no Instagram, e novos produtos relacionados ao Bontê estão em planejamento para futura comercialização. Paula explica que a ideia é sair do campo virtual e fazer com que as pessoas vistam o Bontê, “para levar o Bontê com você toda hora”.

Texto: Henrique Nascimento

Artes: Flávia Godoy

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O CIn-UFPE é um dos mais renomados centros do Brasil e da América Latina. Instituição fundamental para o crescente mercado de tecnologia.

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